Buscar

Flow é bom negócio

Entenda o que é o estado de flow e como criar um ambiente propício à sua ativação pode transformar sua organização e seus colaboradores de uma forma inimaginável.


RedBull sports

O Seal Team Six (ou DevGru como é denominado oficialmente), é um grupo de elite militar sem paralelos. O treinamento por que passam seus integrantes é rigorosíssimo e único em experimentação de atividades muito pouco convencionais, usando por exemplo, os tanques de isolamento sensorial (veja meus posts sobre o assunto aqui e aqui) como ferramenta de treinamento acelerado para o aprendizado.


Um dos objetivos é o aprendizado de novos idiomas (6 semanas para fluência) para suas operações em outros países. Além da flutuação pura e simples e seus benefícios físicos e mentais, os Seals vem adicionando elementos de biometria avançados como neurofeedback e estímulos elétricos (TCDS - Trans cranial direct stimulation - estimulação transcraniana por corrente contínua) para reduzir a curva cognitiva nos treinamentos e aumentar ao máximo os resultados. Uma missão bem sucedida é aquela onde não se dispara um tiro, afirmam.


Para isso, no "mind gym", como é chamado o centro de treinamento em Norfolk, Virginia, um dos objetivos principais é desenvolver a capacidade do grupo de seis membros, de se fundir em uma só mente coletiva, o 'switch', que define o momento onde o grupo, que não tem hierarquia, (lidera quem tem mais conhecimento em cada etapa da operação) desliga todo o modelo mental individual e se conecta como uma mente só. Intuição, improviso, criatividade e performance.

“Flow é contagiante e acontece quando as pessoas são capazes de se integrar no foco do outro“ .


Os atletas da Red Bull e praticantes de esportes radicais, se enquadram exatamente na mesma categoria dos SEALS. O perigo nas atividades é tão alto, que se não estiverem no estado de flow, o risco de morte é iminente (e acontece com frequência). Um dos maiores desafios modernos, foi vencido por Felix Baumgartner, quando em 2012, saltou da estratosfera em queda livre (e ultrapassou a velocidade do som). Veja aqui.


Ou ainda, relatos do mundo da medicina: “Cirurgiões dizem que durante uma operação difícil, tem a sensação de que toda a equipe é um organismo só, movido pelo mesmo propósito, eles descrevem o momento como um balé, onde cada um está subordinado à performance do grupo e todos os envolvidos compartilham um sentimento de harmonia e poder".

Os depoimentos estão recheados de referências ao estado de pico, 'the zone' ou simplesmente o flow. Não é de adrenalina que eles estão falando.

Tudo isso hoje, está disponível para indivíduos e equipes que queiram elevar seus "estados de pico" a níveis superiores, desde que o ambiente favoreça o processo, o que, no mundo corporativo, pode ser um desafio gigante. Afinal, vivemos em ambientes organizacionais ainda em transformação, um mundo que os já citados SEALS e os militares também definem como V.U.C.A. (Volátil, Incerto, complexo e ambíguo). E esse é o novo normal.


O elefante na sala de reunião


Interrupções constantes, notificações no computador e no smartphone, tudo isso induz a uma atenção fragmentada e que gera resultados pobres, forçando as pessoas a adotarem um modus operandi no trabalho que tem sido responsável por cada vez mais casos de burnout e baixa produtividade. E tem o fantasma da inteligência artificial (assunto para outro dia).


Passou da hora de se discutir de verdade o assunto do burnout. Enquanto (de uma maneira geral, exceções existem sempre) as empresas estão fascinadas pela tecnologia nos processos de treinamento e aprendizagem, aplicativos e plataformas que ainda não comprovaram seu real valor, uma pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva revela que 56% dos trabalhadores com carteira assinada estão insatisfeitos com seu emprego. Isto significa que 18,7 milhões de pessoas trocariam de lugar na busca de mais alegria no trabalho.


E essa alegria no trabalho, o que é exatamente? Como se alcançar esse estado de satisfação e completude no que se faz por 70% das nossas vidas adultas?


É aí que entra o húngaro Mihaly Csikszentmihalyi (pronúncia: mirrai tiksentmirrai), PhD pela Universidade de Chicago e seu estudo sobre felicidade e criatividade, iniciado nos anos 70. Seu trabalho seminal é o ponto de partida de uma viagem extremamente instigante e rica em informação, descobertas e possibilidades (veja mais aqui).


Os estados de Flow acontecem quando seu corpo e mente estão ativados no limite, num esforço voluntário de atingir um objetivo desafiador e com significado.

“Você sabe que o que quer fazer é possível, mesmo que seja difícil e o senso de tempo desaparece. Você esquece de si mesmo e se sente parte de algo maior.”— Mihaly Csikszentmihaly

FLOW talvez seja o estado físico e mental mais buscado na terra; é também o mais fugaz. Muitos passaram séculos tentando, mas ninguém encontrou uma forma confiável de reproduzir a experiência... (e menos ainda com consistência suficiente para acelerar a performance radicalmente). 

Até agora.


Ressonância magnética funcional

A evolução nas tecnologias de imagem cerebral, como a ressonância magnética funcional e o neurofeedback, nos permitem criar métricas ao que, não muito tempo atrás, era uma mera experiência subjetiva.


E com aumentos de performance na ordem de 500% (pesquisa McKinsey 2014), criar um ambiente onde o flow aconteça como rotina e traga significado e realização para quem gera esse tipo de resultado, é sem dúvida um ótimo negócio e um ideal a ser perseguido.


Ativando


Mas como implementar isso de forma prática nas organizações? Na verdade, muito flow coletivo ou individual, já acontece sem que se perceba que se está vivendo o estado. Veja se você se identifica com algumas das características abaixo:


  • Total concentração na tarefa;

  • Clareza de metas, objetivos e recompensas e feedback imediato (da própria atividade ou das pessoas envolvidas nela);

  • Distorção do tempo (passa rápido demais/parece em câmera lenta);

  • A experiência é recompensadora em si mesma *(autotélica);

  • Não há esforço, tudo flui naturalmente e acontece de forma fácil e prazeirosa;

  • Equilíbrio entre o desafio e as habilidades para lidar com ele;

  • Ações e percepções são a mesma coisa (fusão com a atividade), não há ruminação mental do crítico interior;

  • Sentimento de controle total sobre a atividade.


Em algum momento, todos já vivemos essa experiência em atividades das mais diversas e muitas vezes não relacionadas com o trabalho, mas também com algo que realmente gostamos muito e temos habilidade para executar. No meu caso, o flow surge quando escrevo um artigo como este, preparo uma apresentação para uma nova palestra, durante a apresentação da palestra, ou mesmo quando estou nadando ou meditando, o que faço diariamente.


O interessante do estado de flow, é que quando ativado coletivamente, proporciona uma riqueza de sensações e emoções que justificam persegui-lo como objetivo no dia a dia.

O Professor de Psicologia da UNC (University North Carolina ), Keith Sawyer, ao conhecer o trabalho de Mihaly Csikszentmihalyi , identificou dez gatilhos que produzem flow coletivo:


1.Metas compartilhadas - Todos no grupo trabalham pelo mesmo objetivo. Comitês, grupos de projeto, ou os "squads" na recente onda Agile, todos eles tem um objetivo específico em mente. O que se espera destes times é que resolvam este problema específico. Se a meta é bem assimilada e pode ser facilmente definida, a tarefa é ser criativo e voltado à solução de um desafio.


Esse tipo de situação favorece a concentração, hiperfoco e com isso o flow como consequência. Criatividade, como identificação e solução do problema é um gatilho básico, mas a chave para o flow neste tipo de situação está no gerenciamento de um paradoxo, o estabelecimento de uma meta que permita que o time fique focado o suficiente de forma a perceber quando está próximo da solução, mas também uma meta que esteja aberta a alternativas e possibilidades múltiplas de solução, o que faz a criatividade emergir em seu ponto máximo;


2.Escuta Ativa - Prestar total e completa atenção consciente ao que está sendo dito, gerando respostas não racionalizadas, genuínas, um improviso em tempo real;


3. Mantendo o ritmo - As conversas são para acrescentar, não há discussão. Sempre diga “sim” e veja onde vai dar a conversa, amplificando as idéias de cada um. Ouvir atentamente ao que está sendo dito e aceitar de forma inteira e verdadeira, para então amplificar as idéias e construir algo em cima delas. O improviso e o inesperado, são elementos que juntos, podem resultar em idéias surpreendentes. Como diz meu amigo Thomas Brieu, brilhante praticante e professor da arte da "escutatória", ouvir de verdade, é uma suspensão temporária do ego. (veja ítem 6 abaixo);


4. Hiperfoco/concentração total - Foco total no aqui e agora, concentração completa. É fundamental separar o grupo de outras atividades que estejam acontecendo, dando a eles o espaço necessário para dedicar atenção total ao que estão fazendo. Sawyer menciona que esta talvez seja a razão de alguns times de alta performance terem uma forte sensação de identidade de grupo, de estarem à parte do resto do mundo;


5. Senso de Controle - Cada membro do time se apropria do momento e se sente em controle, com autonomia, livre para fazer o que quer e sabe, mas com flexibilidade. As pessoas ativam o flow quando estão em controle de suas ações e do ambiente em torno da atividade. Da mesma forma, o flow coletivo se eleva quando há uma sensação de autonomia, competência e afinidade. A segurança de ter uma liderança que confia, aceita e apoia o que é decidido pelo time aumenta enormemente a performance. Mas aqui há também um paradoxo. Cada membro da equipe precisa sentir ter controle e ao mesmo tempo permanecer sendo flexível, ouvindo ativamente e seguir com o flow do grupo;


6. Egos integrados - Flow coletivo é o momento mágico onde tudo está certo, o time está em sintonia e em sincronia e os participantes parecem pensar como uma só mente. No flow coletivo a idéia de cada um se soma às idéias dos outros que já contribuiram. Pequenas idéias se juntam e a inovação emerge. Pense numa 'jam session'. É a mesma coisa;


7. Participação Equânime - Níveis de habilidade e hierarquia são similares a todos os envolvidos. O flow não acontece se o nível de 'skills' do time não for equilibrado. Todos os membros devem ter níveis parecidos de habilidade. É por isso, segundo Sawyer, que alguns atletas profissionais não gostam de jogar com amadores. O flow não acontece, o profissional se entedia e o amador se frustra. O flow é bloqueado também quando alguém tenta dominar a cena, é arrogante ou acha que não tem nada a aprender naquela situação;


8. Familiariedade - As pessoas se conhecem e tem afinidade, conhecimento compartilhado e entendem as características e hábitos de cada um. Todos estão na mesma página e quando chegam os ‘insights’, não se perde tempo racionalizando. Quando se está familiarizado e se tem afinidade com o companheiro de trabalho, somos mais produtivos e tomamos decisões mais efetivas;


Quando um time já está junto há algum tempo, há um compartilhamento de um código, uma linguagem comum e alguns acordos e entendimentos não explícitos, o que a psicologia define como "conhecimento tácito"


9. Comunicação Constante - Uma versão coletiva de feedback imediato, algo recorrente no estado de flow individual (onde o feedback é a própria atividade em que se está mergulhado) que ganha novas características quando outros estão envolvidos. Sawyer defende (e eu também) que comunicação constante é essencial para o flow coletivo. Ninguém gosta de ir a reuniões inúteis. O tipo de comunicação que leva ao flow na maioria das vezes não acontece numa sala e sim num papo expontâneo, numa caminhada, no happy hour ou mesmo dando carona e batendo um papo de conteúdo com alguém bacana como o Márcio Mussarela faz;


10. Risco Compartilhado - Todos estão envolvidos e investidos totalmente na atividade e no projeto (investimento de tempo, recursos financeiros, humanos e o 'seu na reta'). Todos já sabemos que inovação é resultado de falhas e erros frequentes. Não há criatividade sem tropeços e falhas. Criatividade é um processo, tem método, como bem fala o Henrique Szklo, um dos maiores especialistas brasileiros no tema. Também não há flow coletivo sem o risco do erro. Estas duas conclusões andam juntas porque o flow coletivo é o que geralmente produz as inovações mais significativas.


Mas como criar um ambiente propício para que o flow seja ativado?